
A educação vai a bolsa de valores
Faculdades abrem o capital para crescer – e os estudantes também podem ganhar com isso
Poucos setores têm se transformado tanto no Brasil quanto o de ensino superior privado. O sinal mais claro disso é a recente entrada das universidades na bolsa de valores. Quatro grupos já abriram seu capital e logo virão pelo menos mais três, entre eles o Iuni (do Centro-Oeste), o Maurício de Nassau (o maior do Nordeste) e o Veris Educacional, ao qual pertence o Ibmec. O presidente do Veris, Eduardo Wurzmann, resume a motivação comum a essas empresas: "Não há maneira melhor de patrocinar a expansão das universidades". Redes de ensino superior não são uma novidade no país. Elas surgiram cerca de dez anos atrás. Com a bolsa, agora, ganham um novo – e decisivo – impulso. O grupo Kroton, dono das escolas e faculdades Pitágoras, chegou à bolsa com oito faculdades e hoje tem 25. O Anhanguera passou de dezessete para 47 instituições em pouco mais de um ano. Foi o grupo que mais deu certo: o valor das ações já cresceu 50%. Trata-se ainda de um caso emblemático da profissionalização pela qual passam as universidades. Basta saber que o presidente do grupo, o professor de matemática Antonio Carbonari Netto, resolveu abrir sua primeira faculdade no interior de São Paulo baseado numa "intuição". Uniu-se a três colegas e hipotecou a própria casa para conseguir um empréstimo no banco. "Virei empresário sem saber o básico", conta ele. Hoje, recebe investidores estrangeiros interessados em comprar suas ações.

O ingresso das faculdades no mercado de capitais não provoca apenas uma mudança fundamental na condução desse tipo de negócio no país. Pode representar, também, um avanço para os alunos. Foi o que se viu nos Estados Unidos, onde as universidades começaram a aventurar-se na bolsa quinze anos atrás. A breve experiência brasileira aponta para o mesmo tipo de ganho: mensalidades mais baixas, avanços na infra-estrutura e, por vezes, até a melhora do ensino. Ao abrirem o capital, as universidades juntam dinheiro para esparramar-se por vários endereços e logo se transformam em redes de ensino, nas quais tudo é pensado em grande escala. Na prática, nenhum funcionário vai mais à loja vizinha comprar papel e tinta ou uma impressora nova. Esses artigos são encomendados aos milhares, o que reduz os custos. Torna-se possível, por exemplo, a compra de equipamentos para um laboratório pela metade do preço – daí as chances de a infra-estrutura melhorar. Com esse tipo de economia, a margem de lucro de uma faculdade, que normalmente beira os 7%, chega a 20%. É por isso que grupos que entraram na bolsa, como Anhanguera e Estácio de Sá, conseguem cobrar mensalidades até 50% mais baixas.
Para certas faculdades, a entrada na bolsa acaba tendo ainda impacto positivo no nível do ensino (o que não faz mal às universidades brasileiras). Uma das razões remete, de novo, aos ganhos de escala. Numa rede, os custos com a confecção de currículos e material didático (parte do negócio que sai caro para as universidades) caem drasticamente. O mesmo material é adotado em dezenas de faculdades. Foi justamente por isso que o Kroton (grupo já tradicional no ensino básico, como o SEB, outro que entrou na bolsa) investiu alto na contratação de uma equipe de especialistas em diversas áreas, com a missão de elaborar um plano pedagógico. "Não conseguiríamos isso fora de uma rede de ensino", diz Alicia Figueiró, vice-presidente do grupo. Outro fator que pode impulsionar a melhora do ensino diz respeito à simples lógica do mercado: faculdades muito ruins espantam os investidores e, por isso, aquelas que vão à bolsa têm de se preocupar mais com o lado acadêmico. Diante de notas baixas em alguns de seus cursos em provas aplicadas pelo Ministério da Educação, a Anhanguera decidiu enviar professores para um curso de reciclagem. "Trata-se de uma questão de sobrevivência no longo prazo", afirma o especialista Ryon Braga.
A experiência de entrar na bolsa nem sempre é fácil, especialmente para um setor tão pouco profissionalizado. Para abrir o capital, os grupos precisam apresentar três anos de contas auditadas, um conselho de administração e metas bem definidas de expansão. Freqüentemente, uma reorganização dolorosa do negócio é necessária. A Estácio de Sá, o maior grupo de ensino superior do país, com quase 200 000 alunos, passou por maus momentos depois que entrou na bolsa. Faltou planejamento. Para se ter uma idéia, apenas seis meses antes da abertura do capital o grupo se tornou, oficialmente, uma instituição com fins lucrativos, requisito básico para o IPO. A evidente desorganização afastou os investidores, e o valor das ações caiu à metade. A reação veio há dois meses, quando o GP Investimentos, o maior gestor de recursos de terceiros no Brasil, comprou 20% das ações. Conferiu credibilidade ao negócio. O que atrapalhou a Estácio foi justamente o trunfo da Anhanguera. O grupo, hoje com 47 faculdades e previsão de faturamento neste ano de 600 milhões de reais, começou a se preparar para abrir o capital com quatro anos de antecedência. A transição deu-se com a supervisão do fundo de investimentos Pátria, hoje dono de 50% das ações. Enquanto os grandes grupos crescem, as pequenas faculdades sofrem. Como sabem que será difícil competir com uma rede de ensino, seus donos começam a passar o negócio adiante.
Ocorre hoje no Brasil um fenômeno que teve início nos Estados Unidos, na década de 90, quando grupos de ensino abriram capital na bolsa, motivados pela expansão num nicho até então pouco explorado: o ensino universitário para gente mais velha. Deu certo. O recente ingresso das faculdades brasileiras na bolsa é impulsionado por uma outra realidade, mais parecida com a da China e da Índia, onde grupos de ensino também abrem seu capital. Esses países têm ainda muitos jovens fora das universidades (87% deles no Brasil) e vivem momentos de expansão da economia – o que significa mais dinheiro no bolso das pessoas para pagar por educação. Não por acaso, são boas as perspectivas de expansão do faturamento nesse setor: os 20,5 bilhões de reais deste ano devem chegar a 28 bilhões de reais em 2012, segundo uma projeção da consultoria Hoper. São números polpudos o bastante para atrair estrangeiros. Eles já são a maioria dos investidores em universidades brasileiras na bolsa – e têm apostado também fora do mercado de ações.
O grupo americano Laureate foi o primeiro a se tornar sócio de uma universidade brasileira, a Anhembi Morumbi, em 2005. Na semana passada, o igualmente americano Apollo, o maior grupo de ensino do mundo, ofereceu 2,5 bilhões de reais pela Universidade Paulista (Unip), do empresário João Carlos Di Genio. É a maior proposta já feita nesse mercado. Mais um sinal de que a educação no Brasil se tornou não apenas um bom negócio, mas um negócio diferente.
O fundador da Anhanguera é um excelente exemplo de como o conhecimento tácito influencia a vida e auxilia a tomada de decisão dos indivíduos. Sabe-se que a intuição não é bem um dom, mas sim uma capacidade desenvolvida a partir da observação, da vivência, da experiência e da percepção de cada um. O grupo Anhanguera foi o que mais deu certo, passando de 17 para 47 instituições após a abertura de capital e com um crescimento de mais de 50% no valor das ações. Obviamente, a junção do conhecimento tácito com o conhecimento explícito foi fundamental no sucesso dessa organização, mas, sem dúvidas, o que norteou esse resultado foi o conhecimento desenvolvido ao longo da vida do professor de matemática Antonio Carbonari Netto.
ResponderExcluirAna Paula Nunes
A gestão do conhecimento unida às competências gerenciais possibilitam bons negócios para as organizações. O Brasil tem atraído bons investidores devido a uma triste realidade: o alto número de jovens fora das universidades aliado à expansão da economia, o que significa mais capital para se investir em educação. Os investidores estrangeiros são maioria em universidades brasileiras na bolsa, por ser um bom negócio e, ainda, um negócio diferente. Este fator é importante para o desenvolvimento do país e para a formação dos indivíduos, que tendem a ter, cada vez mais, qualidade no ensino e profissionais competentes, o que é uma grande vantagem para a sociedade em geral e para a economia como um todo.
ResponderExcluirCássio de Araujo
O aumento no número de faculdades disponíveis no mercado tem “prejudicado” muito os alunos que destas fazem parte, já que muitas não oferecem um ensino de qualidade, banalizando o objetivo do conhecimento que é a principal função da uma universidade. A abertura de capital das universidades é um grande benefício para elas, que tem ganhos de escala e conseguem elevar a sua margem de lucro consideravelmente, mas é um excelente benefício, também, para os alunos, que conseguem obter um ensino de maior qualidade, já que as universidades devem manter, sempre, boas imagens para o alcance da confiabilidade do mercado e a atração de novos investidores continuamente sem deixar de lado a qualidade do ensino e conhecimento ofertado. A decisão da faculdade Anhanguera em enviar os docentes para uma reciclagem com certeza é um fator impulsionador para a imagem da organização, já que visa à melhoria do serviço prestado e a sobrevivência em longo prazo. Pode-se considerar que essa decisão foi alavancada devido às competências gerencias dos gestores da empresa, que perceberam a necessidade de uma ação após observar resultados ruins nas provas aplicadas pelo Ministério da Educação.
ResponderExcluirFrederico Goulart
O case Anhanguera demonstra claramente a importância da gestão do conhecimento nas organizações. A troca de informações, o trabalho em equipe, a troca de experiências e de idéias são fundamentais para que seja feito uma boa definição das metas e objetivos e um bom planejamento. Prova disso é que, apesar de ser nítida a vantagem das universidades em abrir o capital na bolsa de valores, o que possibilitou sucesso a várias organizações, a falta de planejamento pode levar esse importante passo ao posto de pior decisão da empresa. A faculdade Estácio de Sá, por exemplo, passou por momentos difíceis ao ingressar na bolsa. Isso poderia ser diferente, se houvesse interação entre as pessoas e se trabalhassem as competências intelectuais da alta gestão, o que, talvez, possibilitaria uma percepção de melhor planejamento.
ResponderExcluirLilian Carvalho
O desenvolvimento da gestão do conhecimento nas organizações é fator essencial no sucesso destas e afeta a vida de todos os stakeholders. A abertura de capital da Anhanguera, uma decisão que envolve os conhecimentos tácitos e explícitos e as competências gerenciais, não beneficia apenas a companhia, mas também os alunos, que alcançam mensalidades mais baixas, avanços na infra-estrutura e, até mesmo, melhoria no ensino; os investidores, que tem uma empresa com valor de mercado em constante crescimento e ações cada vez mais valorizadas e a sociedade em geral, que tem a disposição instituições que oferecem mais qualidade e tecnologia.
ResponderExcluirSivanil do Carmo
O grupo Anhanguera alcançou o sucesso e isso se deve, entre vários outros fatores, á redução de custos alcançada pela organização. Pode-se considerar que a percepção da possibilidade de redução de custos teve grande colaboração das pessoas que efetivamente praticavam simples operações, como o uso do material de escritório. A competência técnica possibilita o conhecimento sobre as atividades especificas, adquirida por meio da aprendizagem ou da experiência prática, o que envolve, ainda, o conhecimento tácito, que é um fator explicito no case de sucesso da Anhanguera. A capacidade de uma visão holística da organização pelos gerentes e pela equipe possibilitou a redução de custos, aliados, sem dúvidas, a alavancagem do conhecimento do mercado e das organizações, que também perceberam a possibilidade de redução de custos. Atualmente, a compra em grande escala é uma prática utilizada em, praticamente, todas as empresas, buscando o poder de barganha e a redução dos valores de compra.
ResponderExcluirSuellen Sernizon